Mi Buenos Aires Querido

Jorge Luis Borges

Jorge Luis BorgesPela perfeição de sua linguagem, a erudição de seus conhecimentos, o realismo fantástico de suas ficções, a universalidade de suas ideias, a beleza de sua poesia, Jorge Luis Borges é aclamado em todo o mundo como um dos melhores escritores do século XX. Seu singular estilo literário parte da interpretação de conceitos como tempo, espaço, destino e realidade, dando vida a reflexões filosóficas essenciais em intrigantes universos povoados por bibliotecas, labirintos e espelhos.

Biografia

«Que um indivíduo queira despertar em outro indivíduo lembranças que pertenceram nada mais que a um terceiro é um paradoxo evidente. Executar com despreocupação esse paradoxo é a inocente vontade de toda biografia.» (Tradução livre de fragmento do ensaio Evaristo Carriego, 1930)

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges nasceu em Buenos Aires no dia 24 de agosto de 1899. Desde muito cedo, desenvolveu afeição pela leitura e foi adquirindo uma grande erudição sob influência familiar. Graças à avó paterna inglesa, teve alfabetização bilíngue. Aos 4 anos, já sabia ler e escrever e aos 10 já havia escrito seu primeiro relato e publicado em um jornal local a tradução ao espanhol de um conto de Oscar Wilde.

Jorge Luis Borges JovenEm busca de um tratamento para a progressiva cegueira de seu pai, sua família se instalou em 1914 em Genebra, Suíça, onde Borges cursou o ensino médio. Em 1919, mudou-se para a Espanha, onde entrou em contato com o movimento ultraísta e colaborou com poemas e crítica literária em diversas revistas. Dois anos depois, regressou a Buenos Aires e participou ativamente da vida cultural da cidade, fundando com outros importantes escritores a revista Proa. Em 1923, publicou seu primeiro livro de poemas, “Fervor de Buenos Aires”. Após várias publicações, a consagração veio em 1935 com seu primeiro livro de contos, “História Universal da Infâmia”.

Para garantir sua subsistência, trabalhou como bibliotecário em Buenos Aires de 1938 a 1946. Nesse ano, porém, Juan Domingo Perón chega ao poder. Como Borges se opunha energicamente ao peronismo, se sentiu obrigado a renunciar e passou a trabalhar durante vários anos como professor de literatura inglesa e como conferencista itinerante. Com a queda do regime peronista em 1955, Borges foi designado diretor da Biblioteca Nacional.

Durante esses anos, o escritor inaugurou o universo fantástico de suas narrativas, incluindo dois de seus livros de contos mais reconhecidos, “Ficções” (1944) e “O Aleph” (1949). Também escreveu diversos livros em coautoria com o amigo Adolfo Bioy Casares e com vários outros colegas.

Borges y Maria KodamaDesde a adolescência, Borges começou a padecer a mesma doença que o pai, perdendo quase por completo a visão em 1955. Seguiu adiante ditando palavras, primeiro para a mãe; depois para a aluna, assistente particular, amiga e finalmente esposa, Maria Kodama. Continuou publicando livros dessa forma, sem nunca perder o ofício nem a magia.

Borges recebeu importantes distinções das mais prestigiosas universidades e de vários governos estrangeiros, além de numerosos prêmios, entre eles o Formentor, em 1961 (com Samuel Beckett), e o Miguel de Cervantes, em 1979. Por uma ou outra razão, o Prêmio Nobel sempre lhe foi negado.

Jorge Luis Borges passou seus últimos dias viajando pelo mundo ao lado de Maria Kodama, vindo a falecer no dia 14 de junho de 1986 em Genebra, cidade de sua primeira juventude. A viúva de Borges é, desde então, a maior divulgadora nacional e internacional da obra do célebre escritor.

POEMA AUTORREFERENCIAL “BORGES E EU” (1960)

Obra

Características

Borges é reconhecido principalmente por sua rica produção de contos e poemas, mas também escreveu ensaios e outros textos teóricos como prólogos, antologias, traduções, cursos e conferências. Publicou, ainda, mais de 30 livros em colaboração com diversos escritores, especialmente com Adolfo Bioy Casares, muitas vezes utilizando pseudônimos. Não foi adepto a escrever romances, pois preferia concentrar-se no essencial. Sua obra foi traduzida a mais de 35 idiomas, levada ao cinema e à televisão e musicalizada por grandes nomes como Astor Piazzolla.

Os relatos borgeanos se constroem com base em uma série de temáticas recorrentes, como filosofia e metafísica; sonhos, realidade ilusória e fantasia; ordem e caos; causa e efeito; memória e esquecimento; tempo e espaço infinitos; instantes e eternidade; universos paralelos; vida e destino dos homens; ego e alter ego; mistério, violência e coragem; utilizando para isso metáforas como labirintos, espelhos, bibliotecas, relógios de areia, bússolas, rios, tigres, círculos, punhais, xadrez. Ao mesmo tempo, sua faceta mais localista se aprecia em histórias de valentes gauchos e em diversos poemas sobre sua cidade natal, Buenos Aires.

Suas influências mais notáveis provêm da literatura europeia antiga e clássica, representada por autores como William Shakespeare, Thomas De Quincey, Rudyard Kipling e Joseph Conrad, e da filosofia representada por Fritz Mauthner, Baruch Spinoza e Arthur Schopenhauer, entre outros. Apesar de Borges ter se declarado ateu, sua literatura também utiliza elementos da Bíblia, da Cábala judia, do budismo e da tradição árabe-muçulmana.

CONTOS

História universal da infâmia (1935), O jardim das veredas que se bifurcam (1941), Ficções (1944), O Aleph (1949), A morte e a bússola (1951), O informe de Brodie (1970), O livro de areia (1975), 25 de Agosto, 1983 (1983).

«[…] vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi minha cara e minhas vísceras, vi sua cara, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam mas que homem algum jamais observou: o inconcebível universo.» (Tradução livre de fragmento do conto “O Aleph”, em O Aleph”, 1949)

POESIA

Fervor de Buenos Aires (1923), Lua defronte (1925), Caderno de San Martín (1929), Poemas (1923-1943), O fazedor (1960), Para as seis cordas (1967), O outro, o mesmo (1969), Elogio da sombra (1969), O ouro dos tigres (1972), A rosa profunda (1975), A moeda de ferro (1976), História da noite (1976), A cifra (1981), Os conjurados (1985).

«Parece-me um conto que Buenos Aires começou: julgo-a tão eterna como a água e o ar.» (Tradução livre de fragmento do poema “Fundação Mítica de Buenos Aires”, em “Caderno de San Martín”, 1929)

ENSAIOS

Inquisições (1925), O tamanho de minha esperança (1926), O idioma dos argentinos (1928), Evaristo Carriego (1930), Discussão (1932), História da eternidade (1936), Nova refutação do tempo (1947), Aspectos da poesia gauchesca (1950), Outras inquisições (1952), O congresso (1971), Livro de sonhos (1976), Nove ensaios dantescos (1982).

«O tempo é a substância da qual sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; eu, desgraçadamente, sou Borges.» (Tradução livre de fragmento do ensaio “Nova refutação do tempo”, 1947).

ALGUmas Obras de outros gÊneros

Antologia da literatura fantástica (com Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, 1940)
Seis problemas para dom Isidro Parodi (policial com Adolfo Bioy Casares, 1942)
O livro dos seres imaginários (com Margarita Guerrero, 1968)
Buda (ensaio biográfico, com Alicia Jurado, 1976)
Borges oral (conferências, 1980)
Sete noites (conferências, 1980)
Atlas (diário de viagem, com fotografias de Maria Kodama, 1985)

Homenagens a Jorge Luis Borges

NA Argentina

É extensa a lista de lugares que evocam a memória de Borges na Argentina, principalmente em Buenos Aires, cidade onde nasceu e morou a maior parte de sua vida:

Fundación Internacional Jorge Luis Borges (Anchorena 1660, Recoleta, Buenos Aires) A fundação foi criada por Maria Kodama em 1988 para divulgar a obra de Borges. Inclui um museu com livros e outros objetos que lhe pertenceram, além de honras e prêmios recebidos. A fundação fica ao lado da casa na qual Borges morou entre 1938 e 1943.

Centro Cultural Borges (Viamonte 525, Centro, Buenos Aires) O CC Borges compartilha o mesmo elegante prédio das Galerías Pacífico, com entrada independente. Embora seja um centro cultural com atrações variadas, homenageia o célebre autor que lhe dá nome com uma exposição permanente sobre sua obra, o “Espacio Borges”.

Busto no Rosedal de Palermo (Av. Sarmiento e Av. Libertador, Bosques de Palermo, Buenos Aires) Desde 1996, uma escultura do rosto de Borges elaborada pelo artista Carlos Estévez faz parte do “Rincón de los poetas” do jardim Rosedal de Palermo.

Estátua no Café La Biela (Quintana 596, Recoleta, Buenos Aires) A estátua de Borges sentado em uma mesa ao lado de seu amigo Bioy Casares recria uma cena comum quando ambos viviam pelas redondezas e frequentavam regularmente este tradicional café.

Estátua na Biblioteca Nacional (Austria 2500, Recoleta, Buenos Aires) No jardim externo da biblioteca, foi inaugurada em 2013 uma escultura de ferro em homenagem ao escritor, realizada pelo artista Antonio Oriana.

Antiga Biblioteca Nacional (Mexico 564, San Telmo, Buenos Aires) De 1955 a 1973, já quase cego, Borges foi diretor da Biblioteca Nacional, cuja sede era este imponente edifício em San Telmo. Atualmente funciona no prédio o Centro Nacional de la Música.

Casa em Palermo (Jorge Luis Borges 2135, Palermo Soho, Buenos Aires) Dos 2 aos 15 anos, Borges morou no antigo endereço Serrano 2135, rua que hoje leva seu nome. Embora outra casa tenha sido construída no local, em sua fachada há uma placa recordando o escritor.

Casa em Retiro (Maipú 994, Centro, Buenos Aires) O sexto andar deste edifício cêntrico foi a última residência de Borges em Buenos Aires. Sua fachada hoje exibe uma placa recordatória.

Casa Museu em Adrogué (Diagonal Brown 301, Adrogué, província de Buenos Aires) Nesta pequena casa do município de Adrogué, onde Borges passou vários de seus verões, começou a funcionar em 2014 um museu gratuito com poemas, livros e entrevistas do escritor.

Labirintos em Mendoza e no Tigre  Como resultado de um antigo sonho, foi criado em 2003 um grande jardim-labirinto projetado pelo inglês Randoll Coate na estância Los Álamos, em San Rafael, província de Mendoza. Em seu interior se encontram muitos símbolos borgeanos e, em vista aérea, pode-se ler o nome de Borges duplicado como em um espelho. Existe uma réplica do jardim em Veneza, Itália, e outra no município de Tigre, província de Buenos Aires.

no exterior

Labirinto em Veneza, Itália Um labirinto idêntico ao de Mendoza foi criado em 2011 na ilha San Giorgio, em Veneza.

Cemitério de Plainpalais em Genebra, Suíça  Borges foi enterrado no Cemitério de Plainpalais (Cemitério dos Reis) em Genebra, cidade onde morou dos 15 aos 20 anos e pela qual sentia um profundo afeto.

Jardim do Arco do Cego em Lisboa, Portugal  No jardim que fica em frente à embaixada argentina em Lisboa, foi inaugurado em 2008 um monumento criado por Federico Brook que incorpora de um lado um molde em bronze da mão de Borges e do outro o poema “Los Borges” (1960), no qual o escritor reconhecia ter ascendência portuguesa.


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